» Lakrima Angelorum
Onde ocorre um jogo de você em mim; falamos de asas, de sonhos, de tigres, de espadas, de deuses, labirintos e espelhos; dividimos o passado, modelamos a entropia: o teatro cinerário.
[Breve] Ensaio Sobre Anjos
Este é o terceiro texto que escrevo para cá nos últimos quatro ou cinco anos de existência do sítio, o que poderia denotar pouco zelo, afinal, não mexia aqui desde outubro de 2000. Sinceramente, se indagado, eu diria que não se trata disso: mas de pura falta de tempo. Geralmente as mudanças no Carus vêm como ondas: impetuosas, fazem muita espuma, mas são breves.
Do primeiro sítio a esta atual versão muita coisa mudou, mais do que mudam normalmente comigo. De um visual carregado, de uma vã tentativa ultra-romântica falta em estética, cheguei a esta simplicidade que beira outro tipo de mau-gosto: afinal, a única coisa que agrada a gregos e troianos é Helena.
No período que fiquei sem alterar a casa aprendi e desaprendi a natureza do cinismo, enveredei por diversos caminhos, alguns ao mesmo tempo: descobri a natureza da rocha e o suave anil da impermanência. Cerrei-me mais: sociopatizei-me: misantropomizei-me. Mas é difícil falar de si mesmo, e qualquer tentativa, por mais sincera, será inevitavelmente espúria.
O outro texto havia sido escrito no "domingo. Dia 6 de Agosto de 2000. Noite", enquanto este se desenrola no ano de 2002, noite de segunda-feira, dia 1º de julho, nefasto dia para mim, e também dia de comemorações, porque foi quando me meti a dançar com os demônios: há 7 anos atrás, em quintais de antigas esperanças, nestas mesmas 22h, repetidas enquanto houverem homens e relógios.
Este macrocosmo enlaçado no microcosmo é o que melhor posso oferecer.
O frio de julho é a alma desta cidade, e uma tênue névoa encobre os prédios, já não vejo a Paulista ao longe e suas luzes que nunca deixam de piscar: a cidade-mulher se recata, misteriosa.
Este silêncio que o frio traz: a gata que dorme sobre a cama: a árvore que balança ao compasso suave do vento: o trem que escorrega por seu destino de metal e madeira, sempre o mesmo, como os homens: este silêncio que eu inutilmente vou trincando com a intermitente digitação.
Iludi-me ao achar que a inconstância era a imagem do caos, quando não passa da mais perfeita ordem: vi, assim, em minhas mudanças, a imagem da estagnação, a certeza do ódio.
Coisas que não mudaram neste ínterim: continuo tendo nascido no ipiranga, são paulo, não obstante seja avesso a gritos em margens plácidas ou não, e moro na mesma casa vertical em santo andré, região da grande são paulo. dos gatos que vivem aqui, apenas duas permanecem as mesmas, há três novos, e um sem número de eventuais que vêm elegantemente solicitar uma refeição e companhia em minha porta para depois voltarem a suas felinices: bibliotecas serviriam apenas para iniciar a descrevê-los. amo-os incondicionalmente.
Meu nome continua o mesmo, conquanto persista a sensação de que preciso trocar o epíteto. Estou na versão 2.2 revisada e ampliada, e o futuro me assombra, porque incerto.
Como sempre, só. Misantropia é palavra de ordem por aqui e o ódio por essas plagas grassa.
Mantenho, com orgulho, minha monstruosidade: meu autismo pouco livre: permanecem as idéias fragmentadas a meu respeito, as imagens tão distintas. pequeninos: não ousem me julgar.
A alma formada por retalhos. Um conceito de alma. Um grito tão forte de solidão que é puro silêncio. O cinza do lobo. O cinza do céu. O cinza da pele.
É este tanto que consigo externar, sem comprometer-me: detesto comprometimento.
Oficialmente, sempre fui uma boa sombra cheia de contornos: um anjo tropeçado de asas chamuscadas, incapaz de cair.
Cada lembrança é um sussurro. Cada pedaço de memória também é um caco afiado de vidro: sequer o passado me pertence, nem ele mais é um porto seguro.
A única verdade é verdade nenhuma.
Escolhemos o que queremos ser, do princípio ao fim.
De certa forma, ainda que haja mais a ser dito, isto é o suficiente [para descarregar minha consciência e alimentar uma eventual curiosidade/animosidade que o leitor nutra].
Ficamos assim: quem se importa?
Aliás, antes que eu me esqueça, perdoem o pedantismo. Não posso evitar.
01.07.2002 - 23:55